29 maio 2012

A cadeira do meu avô

o telefone toca insistentemente. vou a correr. atendo. aquela senhora com voz grave diz-me que ele morreu. confunde-me com a minha mãe. pergunta-me onde está o meu pai. ele tinha ido naqueles minutos anteriores com a minha avó para o hospital para o ver. não é boa ideia a senhora cá chegar e vê-lo morto. chamo a minha mãe. a minha mãe liga ao meu pai e avisa-o para não deixar transparecer as emoções para a mãe dele, mas que o pai já morreu.
ligo à minha irmã. os miúdos ainda não tinham telemóvel. ela estava em casa do namorado. atendeu-me a irmã dele. peço para chamar a minha irmã. ela passa a chamada e eu digo-lhe. o avô morreu. ela desfaz-se enquanto o telefone cai ao chão. quem lhe pega é o namorado. pergunta-me a que horas foi. e como estou.


os meus pais não me queriam em casa na altura de dar a notícia à minha avó. atravesso o corredor do prédio, imenso como a morte dele. vou pra casa da minha madrinha. ela pega na família dela, e em mim, e leva-nos a comer um gelado. eu ao colo do meu padrinho a comer uma bola de gelado de nata num copo.


chego a casa. tranco-me no quarto, sozinha. a minha irmã ainda não tinha vindo de casa do namorado. para quê? encontrava lá mais conforto. e eu? que conforto tinha aos 12 anos uma miúda a quem o hospital deu a notícia mais terrível por se terem confunfifo? quem confunde a voz de uma miúda de 12 anos com a da mãe? morreu um dos melhores homens que fazia parte da minha vida, que me construia mobília para a Barbie, que me construia baloiços, que me deixava carregar coelhinhos no seu chapéu. morreu o homem que me dizia para correr atrás dos meus sonhos sem nunca olhar para trás. morreu o homem que ficava apenas a olhar para mim enauanto eu estava a estudar para estar presente enquanto cá estava. morreu o homem que me pediu para lhe ensinar inglês para absorver cada cheiro meu, cada célula, para me fazer a mim dentro dele.
finalmente desfaço-me.

passaram exactamente 15 anos. passou mais tempo que o conheci morto do que vivo. mas ainda hoje sinto a sua falta. ainda hoje sei que ele me ajuda e me observa. sei que ele sabe das minhas venturas e desventuras, por muito más que sejam. mas continua a a querer que eu corra atrás dos meus sonhos, por mais distantes que possam parecer de alcançar.

todos os anos neste dia 29 de maio te vou visitar, avô. espero que o saibas e me sintas lá contigo. vou-te contar o que de bom e mau aconteceu nesse ano. contei-te quando acabei o secundário. nessas alturas, enquanto não tinha carta, o pai levava-me, todos os anos, depois do trabalho até ti. contei-te que estava doente e que tinha de melhorar mas que não sabia como. contei-te que acabei o curso, independentemente da doença. contei-te que estava finalmente bem, livre da doença. contei-te que já era mestre. contei-te que era já advogada estagiária e faltava pouco para concretizar o sonho. finalmenet o ano passado disse-te que já tinha acabado o estágio, e faltava só um pouquinho assim para o sonho ser realidade. este ano não te vou contar que já sou advogada. mas temos sempre novos sonhos, novas metas. e não seria eu se não os partilhasse contigo, meu querido querido avô.

Não consigo entrar na tua casa sem te ver deitado naquele maldito caixão que a avó teimou em deixar aberto na sala. mas trouxe muita coisa tua comigo para coimbra. a tua cadeira. a cadeira do teu escritório, onde fazias os teus negócios. está comigo e comigo irá para onde eu for. ela é um pedaço de ti e eu de ti. complementamo-nos. não preciso dela para me sentar porque até é desconfortável para lá se estar muitas horas sentada, mas quero ter o sucesso que tu tiveste enquanto te sentavas naquela cadeira e negociavas os teus vinhos e aguardentes.


guardo as memórias mais queridas e felizes. nós dentro da caixa do milho. nadávamos como se estivessemos no mar. mas tu não sabias nadar. quando iamos de férias para tua casa, íamos para a ria, onde te emprestava o meu colchão enquanto eu ficava com as braçadeiras. mostravas-me a todos como o teu troféu, o teu bem mais precioso. a tua neta que falava pelos cotovelos. a que tinha sempre a resposta na ponta da língua. a que te levava a fazer tudo o que ela queria com os seus argumentos hilariantes mas bem construídos. a neta mais parecida consigo.
tenho tantas saudades tuas. os olhos estão rasos de lágrimas, mas já não há necessidade de dramas. sei que não vais estar cá para o que eu ainda vou precisar de ti. não vai conhecer o meu marido nem os meus filhos. não me vais ver ser advogada ou juíza. não vais ir à inauguração da minha casa. Não me vais passar a mão na barriga quando lá estiverem os bebés. já me conformei. sinto a tua falta. sem dramas. sem lágrimas. apenas a realidade.

Hoje, mais uma vez, cumpro a tradição. vou até ti dar-te um beijinho, ver como estás, limpar e embelezar a tua casa. falo-te um bocadinho da minha vida até te embalar de novo ao teu sono profundo. vou enquanto tu precisares de mim. e eu de ti. desta vez levo-te orquídeas do jardim/horta que o teu filho fez na nossa varanda, da casa que nunca chegaste a conhecer. foi criada com amor e carinho por aqueles que te têm mais carinho e amor.

vais ficar contente por saber que eu e o pai, apesar das turras e discussões, já nos entedemos melhor. e no natal, depois de toda a gente estar na cama, eu e o pai juntamo-nos à volta da lareira, cada um com o seu copo de espumante da bairrada, e brindamos a ti. sem palavras. sem lágrimas. cada um de nós tem as suas próprias recordações. é a forma que temos de te homenagear. não sabemos outra. sem ser sermos felizes, claro.

2 comentários:

Sexinho disse...

Desculpa-me por fazer um comentario num post tão intimo mas não imaginas quanto me comoveste e em quanto me revi aqui.
Obrigada

M. disse...

Não tens nada que pedir desculpa. Obrigada eu por me teres feito sentir que afinal ter um blog não foi uma asneira. Que afinal eu poderei ter algo para escrever que as pessoas queiram ler ou se identifiquem com isso. Obrigada! Um grande beijinho :)