"Compreendo essas pessoas, tanto os putanheiros que negoceiam Mercedes, como as senhoras que comem palmiers na confeitaria. Compreendo até os dermatologistas. À sua maneira, cada um deles se sente rejeitado pelas minhas tatuagens e pelos meus piercings. Acreditam que eu não quero ser como eles, não quero ser eles. Têm de responder de alguma forma a essa rejeição. É-lhes fácil encontrar falta de sentido em furar o corpo com uma agulha e colocar um pendente metálico ou em preencher uma parte da pele com cicatrizes cheias de tinta. Uma pergunta que também me fazem, visivelmente baralhados, é: porquê?
As razões não são simples e são demasiado íntimas. Não tenho de dá-las. Talvez seja necessário ser eu, estar no meu lugar e ter o meu nome para entendê-las por completo. Essa é a natureza da pele. Para nós próprios, a pele é aquilo que nos protege, a fronteira entre a nossa presença e o mundo físico, o aparelho sensível que capta a percepção daquilo com que interagimos. Para os outros, essa mesma pele é a nossa superfície, a aparência. E, já se sabe, a aparência é tão enganadora, a superfície é tão superficial.
Também é comum admirarem-se com o carácter definitivo das tatuagens, perguntarem-me se não tenho medo de me arrepender. Sorrio. Emociono-me com a inocência daqueles que não percebem que tudo é definitivo e deixa marcas. Eu escrevo livros. Sei que tudo é definitivo e nada é eterno.
Sim, dói fazer piercings e tatuagens. Não, não são uma picadinha e não, não são uma cócega. Para quê fazê-lo? Já respondi, cada um terá as suas próprias razões. São indiciduais e ninguém deveria sentir-se ameaçado por elas. Quando pedi a opinião da minha mãe, uma mulher que nasceu no início dos anos quarenta e que me trouxe ao mundo nos anos setenta, ela respondeu: desde que não seja no meu braço, tudo bem. Fiquei feliz por ter a aprovação que realmente me importava. Tudo bem, mãe, é no meu braço.
[...]
Em casa, tomo banho. A água morna na minha pele. Deslizo as mãos pelo meu corpo. É meu. Estou dentro dele."
José Luís Peixoto, in Abraço
To be continued...
2 comentários:
E ficaria muito bem respondido :) Se há coisa que me irrita no ser humano é o facto de assumir que as suas escolhas são mais válidas do que outra pessoa qualquer. Nem todos gostamos do mesmo, nem todos queremos o mesmo, nem todos temos os mesmos objectivos na vida, cada um vai fazer o que for preciso para ser feliz e nem tem o direito de questionar o porque.
Apesar de não ter nenhuma tatuagem, revi-me no texto ;)
Beijinhos
Beijinhos :)
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