Fui ao Luso em trabalho. Não é suposto nós irmos a casa dos clientes ter reuniões. A falta de dinheiro de alguns justifica alguns desvios à norma por outros. Fui buscá-la à saída do emprego, onde entraria de novo antes da hora de jantar. É cozinheira. Entra no meu carro como se dele fizesse um táxi, com umas trouxas que tem de deixar em casa. Outra é para a "Dra. deixar em casa da sua tia emprestada"! Seguimos estrada acima, onde me vai indicando esquerdas e direitas como se eu as soubesse distinguir. A sorte é que gesticula em conformidade e não tenho de lhe revelar a minha dislexia. Chegamos ao fim do mundo. Numa rua sem saída, vislumbra-se uma vida despojada de qualquer alegria. Abre-me a porta e a sala das visitas que nunca é utilizada, onde a mesa de jantar tem naperons e molduras em número aburdo. Enquanto demora a desocupar o espaço da reunião, vai berrando com o gato, dizendo-lhe que não pode entrar, que não é tempo de brincar, que está qui a "Dra.". Duas horas depois, descemos rumo ao Luso. "Mas então a Dra. tá a descer pra baixo quando a casa da sua tia emprestada é pra cima?" Quero o meu tempo com a minha tia emprestada. Digo-lhe que há urgência nas fotocópias, ela conforma-se e começa a pôr em ordem os papéis ainda antes de entrar na papelaria.
Despeço-me com as fotocópias na mão. É tempo de subir de novo a estrada rumo ao Buçaco, onde me espera a tia emprestada, a Molly, uma chávena de chá preto com leite e um passeio pela Mata, a recordar a infância passada entre o Vale dos Fetos e a Cruz Alta, os banhos à meia noite na água fria da psicina substituída por um jacuzzi, as velhas camas onde saltava e me recusava a adormecer. Como fui feliz. Como sou feliz...


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